sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Minha declaração de amor

Eu confesso: sou apaixonado por Capitu. Ela é o grande amor da minha vida. Seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada me remetem ao olhar de Marilyn Monroe; sua personalidade forte e decidida, como um aviso do que viria ser o feminismo na metade do século XX, me entorpece.

Capitu é uma mulher que poderia viver nos dias de hoje sem passar por adaptações na sua genial construção. Ela não seria exposta nas bancas de jornal como carnes em açougue, não entraria no BBB, não iria sem calcinha para o baile funk. Ela é e sempre foi mais moderna que isso. Não precisa dessa busca hedonista pela comercialização do próprio corpo; está acima disso. A mim parece que os avanços femininos na sociedade deixaram parcela das mulheres perdida, sem lugar no mundo. E, protegidas pelo argumento de que o corpo é delas, retrocedem e se expõe totalmente, como num apelo: "por favor, me olhem, me toquem, me comam, eu ainda estou aqui".

Capitu não. Ela chegou no auge dos avanços femininos antes de todas elas e, talvez por isso, não tenha essa crise de auto-afirmação. Eu seria capaz de apostar que ela olhava penalizada para as outras mulheres da época. Quase consigo ouvir sua voz murmurando para si mesma "quanto tempo elas vão demorar para entender tudo?". Pois é, Capitu, meu amor, ainda não entenderam.

Sobre a traição, ora, mas é claro que ela traiu! Não por maldade, não por puro tesão; Capitu traiu porque foi obrigada a trair. Como manter a felicidade necessária à casa tendo um marido como Bento Santiago? Um homem amargurado, inseguro, mimado. Capitu não pediu separação antes não por medo do marido, mas sim porque conhecia como poucos a sociedade em que vivia. Sendo assim, não via outra forma de manter aquele casamento. Capitu traiu para salvar, salvar Bento, salvar Ezequiel. Aliás, ainda sobre o último, este foi a grande prova da sabedoria de Capitu. Bento queria um filho e não conseguia tê-lo; se frustrava cada vez mais por isso. Capitu deu um filho a ele, sabendo ser a única forma de melhorar a situação da casa. Enquanto Capitu era devassada por - quem sabe? - diversos paus, surgia a heroína. Enquanto chegava ao orgasmo em outras camas, continuava com a consciência limpa, ciente de suas boas intenções.

Cruelmente, a minha grande paixão foi criada quase um século antes de eu nascer. Mal consigo acreditar, inclusive, que ela foi simplesmente "criada". Sua construção genialmente realista a torna mais real que as pessoas de carne e osso. Seus olhos de ressaca não tragam apenas o nadador-defunto, mas toda a História. Seria pequeno demais limitar Capitu a um mundo criado, a um tempo predeterminado. Ela é a força da mulher em sua magnitude atemporal.

É. Deveria haver mais garotas como Capitu.

Carta a um par de mãos e um sorriso

Minhas mãos tristes e ressecadas, ligadas a um corpo ébrio, seguraram suas mãos pequenas e delicadas. É só disso que eu lembro. Disso e de seu sorriso. Você tem noção que a partir daí tudo mudou? Não quero bancar o melancólico, garota, mas sabe como é, né? O fim de ano chegando, toda aquela pressão... E você me arruma um problema desses! Imagina que eu passei um tempo pensando em passar um tempo contigo, mas nem sei seu nome, seu rosto, sua vida, nada. É um grande mistério e talvez por isso seja melhor que qualquer outro caso recente meu. Perdi meu tempo procurando alguma coisa, nunca achei nada, e agora não paro de pensar no extremo "nada", se é que posso chamar assim. É como um pedaço de papel em branco, tipo este que preencho aos poucos. Posso colocar o que quiser, se me arrepender, eu apago e escrevo outra coisa, faço um desenho se der vontade, mesmo que não seja bonito, é o que eu quero fazer. Você é uma folha de papel em branco. Nossa, péssima essa metáfora, me perdoe, mas é como eu posso te descrever. Se ao menos você aparecesse, eu podia ter outra idéia da sua existência. Juro que me esforcei em captar um pouco de sua história pelo toque de seus dedos ou pela brancura de seus dentes, captar sua personalidade. O problema é que eu nunca fui muito bom nessas babaquices românticas. Desculpa, de novo. Mas - quer saber? - não precisa aparecer não. Mais vale uma folha de papel em branco que uma com uma crônica do Paulo Coelho.

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Aim beque.

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Na vitrola: o disco Correndo Atrás do Perigo, dos Skywalkers.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Desculpas

Desculpem-me. A meia dúzia de leitores que eu tenho deve estar realmente chateada com o fato de eu não estar postando com a freqüência de outrora. Ou não. Mas eu finjo que está sim. O fato é que estou com planos pretensiosos ocupando minha cabeça e, se tudo der certo, vocês saberão em breve. Vai valer a pena. Ou não.
Por enquanto, mando todos à merda. Ou não.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Segurança

- Fica quieta. Isso é um assalto. Me passa toda a sua grana.

- Oh, desculpe-me, mas levaram tudo no assalto das cinco.

- Porra, mas são seis e meia! Você não saiu desse ônibus em uma hora e meia?

- Não, não saí... Sabe como é, o engarrafamento.

- Assim é foda! A gente tentando fazer um trabalho honesto...!

- Desculpa, desculpa... eu não tenho culpa! Acho que vocês tinham que se organizar melhor, os assaltos têm que ocorrer em um intervalo de tempo que dê para a pessoa passar em casa, não acha?

- Sinceramente? Eu acho que tá uma puta desorganização nesse meu ofício. Já tentei mandar carta aos caras da Associação, mas nada adianta! É foda!

- Pois é! Um absurdo!

- Um horror...

- Você quer que eu te dê meu endereço? Pra você fazer seu seqüestro semanal lá! Aí ficamos quites, não acha?

- Ah, obrigado, você é muito gentil. Mas não. Essa semana eu consegui licença, não vou fazer meu seqüestro. Meu décimo quarto filho nasceu.

- Oh, parabéns!

- Hehe, obrigado. Mas semana que vem, se você quiser...

- Pode ser... Vê se não tem algo errado neste sistema, há duas semanas que ninguém nem sequer invade meu apartamento!

- Não acredito! Duas semanas?

- Pra você ver...

- ...

- ...

- Então tá marcado? Que dia é melhor pra você?

- Olha, na quarta eu vou servir de escudo humano numa rebelião, e na quinta vai ter o arrastão, não posso perder!

- Ah, você vai no arrastão? Que legal!! Eu vou participar, vou pegar as coisas do posto 9!

- Há! Vou pra lá, quem sabe você não pega minha bolsa! Mas enfim, na sexta feira estou livre...

- Hm... pode ser no sábado? Na sexta eu tenho que resgatar uns parceiros numa delegacia.

- Tá bom, sábado! Às seis tá bom?

- Tá ótimo!

- Marcado então, sábado às seis... você tem corda pra me amarrar? Eu posso ver se a corda da última ainda está lá... mas não tenho certeza.

- Relaxa, eu tenho.

- Meu ponto. Deixa eu descer. Nos vemos no sábado!

- Nos vemos no sábado.


(texto escrito em 2004)

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Um contraditório só

Não traga
nada
da vida amarga
que um dia acaba,
não tarda.
Mas traga.



Na vitrola: Enterro de um santo - Facção Central

sábado, 27 de outubro de 2007

A gente não quer só ciência

O mundo é movido pela ciência. Não necessariamente aquela repleta de fórmulas matemáticas e teorias complexas. A ciência está presente no simples ato de levantar da cama e viver ou, na pior das hipóteses, sobreviver; está ligada diretamente à cultura mais básica, como as noções de higiene, e poucos se dão conta disso. Porém, há nos dias de hoje a ânsia por uma ciência quase artística, transformada em entretenimento por meio de viagens à imensidão do Universo e às microscópicas organelas celulares humanas.
A Humanidade deve sua privilegiada posição ao conhecimento científico adquirido durante séculos de intenso estudo. Todas as facilidades - e também dificuldades - atuais só são possíves graças aos avanços da ciência. É impossível desvincular o mundo moderno da tecnologia, e deve-se aproveitá-la para a solução de problemas, mesmo os criados pela própria.
Além disso, é necessário perceber a ligação sempre existente entre a ciência e a arte. Os pintores renascentistas são um exemplo pertinente: para aprimorarem seus quadros, faziam questão de matematizar todas as figuras, inclusive as pessoas, a fim de serem mais exatos em suas representações. Esse diálogo entre a razão e a emoção, aparentemente contraditório, enriquece tanto cientificamente quato artisticamente a Humanidade.
É possível concluir, então que a espetacularização do anônimo pode ser altamente positiva. Assim como o mundo é movido pela ciência, a Humanidade é movida pela arte; e do encontro dos dois surge o amadurecimento humano. Em harmonia, arte e ciência são as vigas de sustentação que permitem a construção de projetos ambiciosos; chegar ao sol metafórico da sabedoria, não como o malfadado Ícaro, mas a passos lentos e seguros.


(texto retirado de um simulado. O tema era "a presença anônima da ciência versus sua espetacularização")

domingo, 21 de outubro de 2007

Mais um poema para você

Me sinto ridículo por aqui
escrevendo mais um
poema de
paixão
pra
ti.

Me sinto diminuído pela
sua presença e sorriso
sempre muito
maiores
que
eu.

É.
Mas é
só eu pensar
um pouco mais
em você para voltar
ao normal e até crescer.